Yo vengo de las Indias | Maria da Graça A. Mateus Ventura

Fauna marinha fantástica rodeando caravelas na costa do Brasil. Theodore de Bry. Historia Americae. Frankfurt, 1590.

“Ao ocidente rumam as naus inventoras de regiões”, escreveu Juan de Castellanos no seu canto épico da conquista da América pelos espanhóis, em 1589.

Descobrimento ou invenção, a Quarta parte do mundo, precipitadamente baptizada de América por Waldseemuller, em 1507, apresentava-se aos europeus como um jardim de delícias. A primeira percepção do Novo Mundo foi fruto de uma projecção da mentalidade europeia na nova geografia. Captou-se o desconhecido em função do conhecido. Baptizaram-se as terras, os mares e os rios de acordo com o imaginário, as expectativas e as recordações.

A tradicional visão ptolemaico-cristã da Terra dificultava a aceitação de uma nova realidade geográfica como entidade espacial, temporal e cultural. Se nas vésperas da expansão marítima os europeus dispunham de informação vaga e dispersa sobre a África e a Ásia, de um quarto continente nem sequer se suspeitava. A constatação da existência da América e a sua gradual aparição como uma entidade de direito próprio constituíram, pois, um desafio maior a todo um conjunto de preconceitos tradicionais, crenças e atitudes. A dimensão deste desafio permite-nos compreender um dos factos mais surpreendentes da história intelectual do século XVI: a aparente lentidão da Europa no ajustamento mental necessário à integração da América no seu campo de visão. A reacção dos europeus aos primeiros textos publicados sobre o Novo Mundo, manifestada na avidez da leitura e nas sucessivas edições das cartas de Américo Vespúcio, de Cristóvão Colombo e de muitas outras narrativas, reflecte emoção e deslumbramento, sentimentos progressivamente esfriados pelo desbravamento do espaço real. Às descrições edénicas da paisagem e dos índios, sucederam-se relatos que suscitaram inquietações de ordem teológica e filosófica, como a condição humana dos índios. Se os europeus não viajados conservaram, durante todo o século XVI, uma imagem paradisíaca do Novo Mundo, patente nas iluminuras e gravuras, os viageiros europeus constatavam o contraste civilizacional e sublinhavam o estado de «barbárie» das sociedades índias.

Descoberta de uma cruz entre as rochas. Theodore de Bry. 1590.

 

Na verdade, a resistência de filósofos e cosmógrafos em incorporar a nova informação proporcionada pela descoberta da América é um exemplo da dificuldade do Velho Mundo em gerir a diversidade cultural e, em particular, os efeitos desta nova realidade. Sob o ponto de vista intelectual, a descoberta da América constituiu um desafio à Europa, na medida em que pôs em causa preconceitos europeus sobre a geografia, a história e a natureza do homem. Uma primeira barreira mental dos descobridores era configurada por um sistema mítico com profundo enraizamento cultural, como o Éden, os mitos da Antilha e de São Brandão, as Sete Cidades de Cibola, as Amazonas, o Eldorado. Por outro lado, a influência dos livros de cavalaria moldou um código de conduta do conquistador que reproduzia o código de honra e fama próprio do cavaleiro medieval. A obsessão pela fama e pela riqueza fácil constituiu outro entrave a uma clara percepção do Novo Mundo. Os conquistadores manifestam uma visão economicista da natureza, deslumbrando-se com a riqueza em pérolas do Caribe ou com os tesouros mexicanos e peruanos.

À medida que se avançava no descobrimento e na conquista e os limites do Novo Mundo se alargavam, a experiência e a familiaridade com o continente permitiram um olhar mais atento e distanciado por parte dos cronistas europeus, sempre condicionados pela sua função no processo, interesses (materiais ou espirituais), formação cultural e grau de vivência da diversidade. Daí que o soldado descreva a terra em função das condições para a conquista, o colonizador se fixe nas condições do território para a sua exploração e o evangelizador se centre num estudo etnográfico e antropológico.

Em termos cognitivos, a mudança joga-se na controvérsia entre o velho e o novo, numa profunda resistência à novidade e no apego aos velhos paradigmas. Os primeiros descobridores estão profundamente constrangidos pelos modelos culturais europeus, pelo que a sua percepção peca por deformação. Os cronistas-conquistadores, condicionados pelas duras condições de sobrevivência e pelos imperativos de imposição militar, estavam limitados a uma leitura utilitária, mas revelam algum distanciamento na descrição da natureza americana. Os cronistas-evangelizadores manifestam um maior empenho na descrição antropológica e cultural que na descrição geográfica e, nesse campo, apresentam um forte eurocentrismo, ainda que a imagem do índio chegue à Europa associada a virtudes como a bondade, a humildade e a afabilidade. Os cronistas-gerais, como António de Herrera, mais ou menos distanciados do seu objecto narrativo, oscilam entre a contemplação e a especulação. Fernández de Oviedo representa a primeira atitude, enquanto o padre José de Acosta é o expoente máximo da segunda.

Em 1528, o humanista espanhol Hernán Pérez de Oliva escreveu, a propósito da preparação da segunda viagem de Colombo, que esta se destinava a «mesclar o mundo e dar àquelas terras estranhas a forma da nossa». Segundo Edmundo O’Gorman, a América não foi descoberta, mas inventada pelos europeus do século XVI. Oviedo apresenta Cristóvão Colombo como «primeiro inventor e descobridor e almirante destas Índias», enquanto Juan de Castellanos inicia o canto II das suas Elegias de varones illustres exactamente com o verso «Al ocidente van encaminadas las naves inventoras de regiones». Nesta medida, ambos se aproximam de Nelson Goodman quando este conceptualiza o mundo como uma leitura e não como uma realidade. A visão do novo dos viageiros europeus estava condicionada pela sua expectativa, viam o que queriam ver e ignoravam aquilo para o qual não estavam preparados, num puro acto de supressão e completação.

Neste sentido, os navegadores, os cartógrafos, os cronistas foram inventores de regiões não só por lhes terem atribuído novos nomes, mas sobretudo porque a sua representação do mundo novo constituía uma invenção mais ou menos presa a interesses particulares e a padrões culturais e mentais.

Não esqueçamos que o nome de Índias, atribuído por Colombo a esta quarta parte do mundo, logo em 1492, rapidamente se impôs e prevaleceu na terminologia oficial até ao século XVIII. É uma invenção também porque a América foi construída por agentes que transmudaram para esse mundo novo a imagem da Europa – organização urbana, sistema político-administrativo e, até, a toponímia europeia.

Detalhe do planisfério anónimo de 1502 (dito «de Cantino»)

A cartografia, embora marcada pela geografia de Ptolomeu, vai representando os contornos dos Novos Mundos, recheando-os de topónimos míticos, religiosos, profanos, reflectindo a passagem do estado de deslumbramento, manifestado nas esmeradas iluminuras com animais exóticos, a uma progressiva racionalização da concepção do espaço. A geografia do imaginário apresenta na América uma primeira configuração cujos elementos fundamentais são os rios e os espaços insulares. Da Boca del Drago, nas costas venezuelanas, à costa da Florida, encontramos Paraíso, Matinino, Ofir, Bimini, o rio Jordão, o Eldorado.

Trata-se de um percurso encantatório sucessivamente transposto para o interior meridional, mas sempre associado aos rios e às ilhas. Logo na primeira viagem, Colombo afirmou ter visto uma ilha habitada só por mulheres a que chamou Matinino. Mais não fez que ajustar o mito das Amazonas a uma ilha onde as mulheres acorreram à praia à vista das caravelas. Enrique de Gandía relaciona a convicção colombina de ter chegado à costa oriental da Ásia com o baptismo da ilha Matinino, pois Marco Polo difundira a ideia de que no Oriente havia uma ilha feminina e uma ilha masculina. De facto, Colombo distingue o Caribe (masculino) de Matinino (feminino). Segundo Gandía, esta é a principal explicação para a transposição do mito das Amazonas para a América.

O Eldorado surge pela primeira vez em 1539, sendo atribuído a Sebastián de Benalcázar o baptismo de um lugar com este nome em Nova Granada. Parece que nesta região um cacique mergulhava todas as manhãs num tanque e que saía da água coberto de pó de ouro.

Este tanque transformou-se, na mitologia dos conquistadores, num lago localizado sucessivamente em vários lugares, desde a Colômbia ao rio Amazonas. Este mito, que remonta à mitologia grega, atormentou mentes obcecadas de descobridores e conquistadores da América, como Federmann, Jiménez de Quesada, Benálcazar e Pizarro. A descoberta do tesouro de Atahualpa viria a configurar o mito na região do Peru. Avançam os conquistadores, retrocede o Eldorado, sempre inacessível. Associado à obsessão pelo ouro, este foi um dos móbiles da exploração das profundezas do continente americano.

O cenário mítico do Novo Mundo convocou o delírio perante a riqueza fácil, amplificado pelos relatos dos navegadores e dos conquistadores desejosos de acrescentar as suas hostes. A expectativa e a obsessão, deformando a realidade, acabaram por suscitar a desilusão. As crónicas estão repletas de exemplos. Díaz de Guzmán expressa este contraste: os espanhóis encontraram na província de Guairá «umas pedras mui cristalinas» que se criavam no subsolo e que assumiam cores diversas, com «tanta diafanidade e brilho» que pareciam pedras preciosíssimas. Com esta ilusão, os conquistadores «acreditaram que possuíam a maior das riquezas do mundo» e decidiram deixar esta terra e caminhar para a costa a fim de partir para Espanha com as suas famílias.

Se o estado de maravilha corresponde ao primeiro impacto do contacto com a Natureza do Novo Mundo, o estado de desencanto vai-se instalando à medida que se frustram as expectativas de riqueza fácil. O êxito militar da conquista e o sucesso relativo da evangelização não foram acompanhados de um igual grau de satisfação individual e colectiva por parte dos conquistadores e colonizadores. A luta pelo poder, a iniquidade na repartição dos saques, o desajustamento entre as expectativas e a realidade e uma natureza muitas vezes adversa justificam o desencanto que as fontes revelam. São memoriais de conquistadores em que estes se queixam que «padecem necessidade», são cartas de mulheres viúvas ou de maridos ausentes a reclamar da imensa saudade. Lope de Vega, no epitáfio do poeta Medina Medinilla, escreveu «No mar da América se perdeu a flor e a nata de nossa época», ideia corroborada por Gôngora e outros autores. Afogados nos rios, nos portos ou em mar alto, morreram muitos marinheiros, capitães, adelantados e viageiros, muitos dos quais não sabiam nadar nem tinham alguma vez visto o mar.

Uma leitura diacrónica do baptismo do Novo Mundo permite-nos percorrer o espaço mental dos colonizadores. Se na fase de descobrimento se baptizou o Novo Mundo de acordo com critérios essencialmente míticos e litúrgicos, embora surjam também critérios de funcionalidade e evocativos de espaços ausentes e semelhantes, na fase de conquista e colonização a toponímia corporiza a frustração e o desencanto. A civilização ocidental estava profundamente marcada pela tradição clássica e cristã. Logo, a leitura do Novo Mundo era condicionada por referências culturais e religiosas profundamente enraizadas. A necessidade de compreender uma diversidade geográfica e humana levaria, por um lado, a uma revisão do conhecimento divulgado por autores como Mandeville e, por outro, a um processo de trans[1]posição dos mitos cristãos para um novo espaço. O mito de Ofir, associado desde Heródoto a uma terra/deserto de areias auríferas, é transferido geograficamente para o Atlântico. Cristóvão Colombo situa-o no Haiti: «esta ilha é Tharsis, é Cethia, é Ophir e Ophaz e Cipango, e nós lhe chamámos Espanhola». Aqui se descobriu um mundo virgem, como que recém-nascido, onde não havia indícios de velhice. Toda a natureza se encontrava num estado de perpétua juventude. Ofir e Cibola aparecem sucessivamente nos relatos de descobridores, do Atlântico ao Pacífico. O mito de Ofir está ligado ao Eldorado que mobilizou numerosos aventureiros que se sujeitavam aos maiores perigos, movidos pela obsessão do ouro. O seu rasto ficou nas crónicas e na toponímia. Sabendo que cristãos e hebreus acreditavam que o universo havia sido criado no equinócio da Primavera, não admira que os primeiros navegadores julgassem ter chegado ao paraíso perdido. Daí a sucessão de topónimos míticos. Era a transmutação de um mundo ideal, remoto no tempo, para um mundo remoto no espaço.

A alusão directa ao paraíso é frequente na toponímia hispano-americana: Valle del Paraiso, nome atribuído por Colombo – «e o vale grande onde estão povoações, e disse que outra coisa mais formosa não havia visto, por meio do qual vale vem aquele rio… pus nome ao vale, Vale do Paraíso» (Colombo, Diário del primer viaje (1492). Na sua 3.ª viagem, Colombo chegou à foz do Orinoco e ficou deslumbrado com a imensidão de água doce. Julgou ter avistado o Paraíso «porque o sítio é conforme à opinião destes santos e sacros teólogos. E assim mesmo os sinais são muito conformes, que eu jamais li nem ouvi que tanta quantidade de água doce fosse assim adentro e vizinha com a salgada; e nisso ajuda assim mesmo a suavíssima temperança. E se dali do Paraíso não sai, parece ainda maior maravilha…» (Colombo, 1498). Também Vespúcio ficou maravilhado com a diversidade e a beleza da paisagem a sul do equador, embora não fosse partidário dos sonhos obsessivos de Colombo.

Além do Eldorado, também o mito das Sete Cidades de Cibola, frequente na literatura cristã, se foi corporizando na cartografia do descobrimento do Novo Mundo. A sua localização foi-se deslocando cada vez mais para terra firme, a partir das Antilhas. Em 1520, corriam notícias de que na governação de Pedrárias Dávila (América Central) se havia encontrado uma ilha tão rica que se poderiam lastrar as naus com ouro. Os conquistadores acreditavam que as Sete Cidades regurgitavam de ouro e outras riquezas. Esta crença reflecte a confluência dos mitos paradisíacos e de um imaginário marcado pela ambição e pela expectativa de felicidade viável, algures, no espaço ainda desconhecido. Em 1539, o frade português Marcos de Niza, com autorização do vice-rei de Nova Espanha, percorreu o Oeste americano (actual Novo México) onde afirmou ter encon[1]trado as Cidades de Cibola. No Islário General de Alonso de Santa Cruz (1541), as Sete Cidades já são representadas a norte do México, último refúgio da lenda em finais do século XVI. No planisfério Anónimo – João Baptista Lavanha-Luís Teixeira (1597-1612) – está inscrito o topónimo Sete Cidades de Cibola, a nordeste da Califórnia, o que reflecte a sua busca incessante. Na ilha de S. Miguel (Açores) subsiste ainda o eco dessa primeira identificação na Lagoa das Sete Cidades. Perduram ainda, nomeadamente na cartografia mexicana, topónimos que ilustram a emocionalidade dos viageiros: do deslumbramento – El Encanto, Islas En[1]cantadas, La Encantada, El Edén, El Delirio, El Ideal, Las Delicias, Esmeralda, Eldorado (em Nuevo León, San Luis de Potosí, Sinaloa), Paraíso (em Campeche, México, Oaxaca, Yucatán, Querétaro, Quintanaro, Guanajuato) – ao desencanto – El Purgatorio, El Infierno, El Triste, El Perdido, El Olvido, El Imposible.

No campo da evocação, as efemérides religiosas constituem o principal critério usado pelos primeiros navegadores. Cristóvão Colombo usou a nomenclatura cristã, logo na 1.ª viagem, no baptismo das terras que avistou: San Salvador, Navidad, Santa María de Guadalupe, Santa María de Monserrate, Once Mil Virgens, San Juan Baptista… Assim também o Brasil, primeiro «Terra dos papagaios», seria baptizado Terra de Santa Cruz por Pedro Álvares Cabral, embora o nome actual, de origem mítica (Hy Bressail ou Brazil) ou profana, cedo se impusesse, mau grado o protesto de João de Barros (1555) e de Pêro de Magalhães Gândavo (1576). Os conquistadores espanhóis baptizaram inúmeras vilas e cidades de acordo com o calendário litúrgico: Pedro de Alvarado fundou um povoado, entre o Volcán de Agua e o Volcán de Fuego, a que chamou Santiago de los Caballeros de Guatemala, esperando por uma segunda- -feira, 25 de Julho, para baptizar a vila com o nome do santo padroeiro de Espanha; Santa María de la Victoria (em Tabasco), Los Reyes (Lima, Peru), fundado no dia da Epifania,Triunfo de la Cruz (Honduras), ou Santa Cruz (na ilha de Cozumel), Santa Fe (de Bogotá), Gracias a Dios, Nombre de Dios, Corpus Christi (no Rio da Prata e no México), ou Santo Domingo, ou ainda São Salvador da Baía, São Paulo, Santa Catarina, São Luís do Maranhão (Brasil). No campo da simbologia cristã, o calendário litúrgico foi o principal sistema de referência usado por navegadores ibéricos. Contudo, os espanhóis e, em menor grau, os portugueses não se limitaram à liturgia, adoptando também os dogmas como critério de baptismo – Trinidad, Triunfo de la Cruz, Espíritu Santo, San Salvador, Corpus Christi. Por vezes, o novo nome concilia diferentes critérios, como Villa Rica de la Veracruz, na costa oriental do México: «E logo ordenámos de fazer e fundar e povoar uma vila, que se nomeou a Villa Rica de la Veracruz, porque chegámos quinta-feira da Ceia, e desembarcámos sexta-feira Santa da Cruz, e rica por aquele cabaleiro que… se chegou a Cortés e lhe disse que mirasse as terras ricas…» (Oviedo).

O viageiro europeu lia o novo à luz do familiar, pelo que o sistema classificativo traduz uma gramática percepcional que evoca a semelhança e a analogia da configuração externa visível. Os espanhóis foram prolixos na evocação do espaço ausente: à ilha de Haiti, ou Bohio, Colombo chamou La Española porque «A ilha é muito grande… vi que é toda muito lavrada… este porto… ao cabo dele tem duas bocas de nós que trazem pouca água; em frente dele há umas vegas as mais formosas do mundo e quase semelhantes às terras de Castela, antes estas têm vantagem, pelo qual pus nome à dita ilha a ilha Espanhola» (Colombo, 1492); na primeira incursão pelo México, um grupo de portugueses da hoste de Cortés rebaptizou o povoado de Ixtac-Imaxtitlán, próximo de Tlaxcala: «e quando vimos branquear muitas açoteias, e as casas do cacique e os cues… pareciam muito bem, como alguns povoados da nossa Espanha, e pusemos-lhe nome Castilblanco, porque disseram uns soldados portugueses que parecia a vila de Castelo Branco de Portugal, e assim se chama agora»; Venezuela tem origem nas semelhanças com Veneza: «quando os espanhóis descobriram pela primeira vez esta Laguna, acharam grandes povoações de índios formados dentro de água por todas as suas margens; e daqui tomaram motivo para chamá-la Venezuela, pela semelhança que tinha a sua planta com a cidade de Veneza; nome que se estendeu depois a toda a província…» (Díaz del Castillo). É extensa a lista de topónimos evocativos de similitude com espaços ausentes: Cartagena, Nueva España, Nueva Galicia, Nueva Vizcaya, Nuevo Reino de Granada, Nova Lusitânia.

As fontes espanholas mencionam vários referenciais políticos, embora estes viessem a desaparecer a favor dos nomes pré-colombinos. Foi Colombo quem baptizou Cuba de Fernandina, logo na 1.ª viagem, segundo Oviedo, «em memória do sereníssimo e católico Rei Dom Fernando…». Desconhecendo a configuração real de Cuba, Colombo atribuiu a outra parte da ilha o nome de Juana, em homenagem à princesa filha de D. Fernando.

Independentemente do critério adoptado, o tempo, o espaço, a herança cultural e a linguagem condicionaram a leitura do mundo e a incorporação do Novo Mundo no horizonte intelectual da Europa. A diversidade nas leituras justifica-se pelo modo como a tradição, a experiência e a expectativa se conjugaram na formação e nos interesses de cada protagonista. Com Fernando Gil, concluiríamos que o viageiro europeu de Quatrocentos e Quinhentos representava, na literatura ou na cartografia, «colocando tanto o que havia, quanto o que não havia, no mesmo plano da imaginação em que a expectativa precede o conhecimento, a interpretação se sobrepõe à observação e a analogia neutraliza a diferença».

Tropeço inesperado de um genovês, invenção de um cosmógrafo alemão a partir das cartas do veneziano Américo Vespúcio, a América metaforiza a conflitualidade entre a tradição e a inovação, entre o Novo e o Velho Mundo. Mas representa também uma dolorosa caminhada de viageiros que perseguiram e perseguem ainda, em ambas as margens do Atlântico, sonhos, fantasias e expectativas de riqueza, tão desajustados ontem como hoje.

A globalização, timidamente inaugurada há 500 anos pelos Estados Ibéricos e por outros europeus que os seguiram, atenuou os contrastes culturais pela imposição de padrões de comportamento e de modelos de organização, mas não eliminou as profundas barreiras sociais responsáveis pelo desencanto de tantos emigrantes.

O mito do Eldorado, como metáfora do inatingível, perdura ainda, obsessivamente, na mente de milhares de homens e de mulheres que partem para um desconhecido longínquo em busca de felicidade. Diversificaram-se as rotas de encanto-desencanto, manteve-se o espírito aventureiro dos viageiros de outrora. A diferença reside na inversão da relação de desequilíbrio:

os «índios» naturais foram submetidos pela tecnologia dos que chegaram ruidosamente pelo mar, atordoando-os com o trovejar dos canhões e o relinchar desvairado dos cavalos; os emigrantes de hoje chegam silenciosamente, em pequenas vagas, disponíveis para todos os sacrifícios em troca de algum conforto material.