Rio São Francisco, o “velho Chico” | Rogata Soares del Gaudio

Cresci ao longo das margens do Paraopeba, em cujas águas comecei a aprender e a gostar de pescar. A pescaria tem muito dessa relação com o fluir das águas. É momento propício para a reflexão: uma quietude repleta de espera, em que os sentidos se confundem com o próprio burburinho das águas, com aquele mistério de saber que, em um ambiente completamente diverso do seu, existem milhares de formas de vida. Tempo para ouvir o silêncio nas margens, pois todos emudecem, uma vez que o excesso de palavras pode «espantar os peixes». Estes requerem silêncio para se dar a conhecer, para cair no ardil que os aguarda na aparente oferta generosa de alimento…

Naquela época de minha infância, nem sequer sabia que o imenso rio Paraopeba – para minha pequenez – desaguava em outro ainda maior, o São Francisco, e este, por fim, terminava no Oceano Atlântico, passando antes por duas regiões brasileiras (Sudeste e Nordeste), levando água para o pobre sertão, além de transportar pessoas e mercadorias. Porém, as experiências do contato com as águas, o temor pelo possível afogamento – pois os «rios são traiçoeiros» –, o silêncio das palavras, o burburinho das águas, a expectativa pelo peixe mantiveram-se como recordações muito vivas e quase atávicas. Acho que esse respeito pelas águas, essa vontade de delas fazer parte, ainda que das margens, permaneceu como traço em mim, e mais, como parte do que hoje sou.

Somente mais tarde é que comecei a compreender o que era uma bacia hidrográfica e aquele imenso rio de minha infância tornou-se apenas um dentre os muitos que formam a Bacia do São Francisco.

Aprendi que rios também se descobrem… Assim, o rio São Francisco foi descoberto ainda no início da colonização portuguesa pelos viajantes Américo Vespúcio e André Gonçalves, em outubro de 1501. Era norma, no século XVI, ter como base o calendário religioso para designar cada aci[1]dente geográfico descoberto e, como este imenso rio foi descoberto no dia 4 de Outubro, recebeu o nome do santo do dia. Outros historiadores afirmam que sua descoberta ocorreu no dia 10 de outubro, dia de São Francisco Xavier… Dúvidas à parte, o certo é que o nome do rio permaneceu mesmo São Francisco, fosse o de Assis, fosse o Xavier, substituindo assim a designação dada pelos povos indígenas – Opará, ou Rio- -Mar.

Deparei também com suas várias designações: rio São Francisco, chamado de «rio da integração nacional», pois sua bacia ocupa os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, uma área que equivale a aproximadamente 640.000 Km2, ou seja, sete vezes o tamanho de Portugal.

«Rio dos Currais», pois, além de caminho entre as terras produtoras de açúcar do Nordeste e a região das Minas Gerais, havia em suas margens inúmeras fazendas de criação de gado.

E, por fim, «Nilo Brasileiro», em alusão à sua extensão – aproximadamente 2700 km, de sua nascente na serra da Canastra, em Minas Gerais, à sua foz, entre os estados de Alagoas e Sergipe – e porque suas águas, perenes mesmo durante as grandes secas, banham as terras semiáridas do sertão nordestino.

Os tempos passaram e transformaram tanto o rio São Francisco e seus afluentes, quanto eu mesma. Assim me vi pelos idos de 2003 tendo a oportunidade de, enfim, conhecer este imenso rio.

E na experiência de pescar em suas silenciosas águas, sentada num barquinho às suas margens – pois a lembrança da advertência sobre as «águas traiçoeiras dos rios» não me permitia ir além –, pude pensar nos segredos, histórias, mitos, lendas e vidas que passaram por suas águas, confundindo-se com estas e re-significando-as.

Pensei nos muitos jagunços que viveram e morreram em suas margens… Lembrei-me de um conto de Guimarães Rosa, chamado A Terceira Margem do Rio, em que uma pessoa deixa-se perder pelas águas, vivendo em um barquinho até os anos confundirem-no com o próprio rio. A lembrança desse conto, ali, naquele contato muito pessoal entre mim e o rio, levou-me a refletir acerca do deixar-se levar pela vida, sem saber bem para onde…

Pensei nos primeiros europeus aventurando-se por estas terras em busca de metais 85 e pedras preciosas, vivendo das águas e dos peixes do «Velho Chico» e dos frutos das matas.

Lembrei-me dos «Gaiolas», navios que, no início do século XX, percorriam suas águas, nos trechos navegáveis de Pirapora em Minas Gerais, a Juazeiro, na Bahia, semelhantes àquelas embarcações que percorreram também o Mississipi, nos Estados Unidos…

Pensei na vida das lavadeiras, mulheres que sustentam suas famílias lavando roupas para fora às margens do São Francisco; nos mitos e lendas que povoam este rio, como o Nego D’Água, responsabilizado pelos acidentes com as canoas e a fuga dos peixes; a presença da Mãe D’Água, mítica figura, semelhante às sereias gregas, a chamar os pescadores para o fundo dos rios; a presença do Minhocão, imensa serpente que navega pelo rio, afundando as embarcações. E associei tudo isso ao desenvolvimento da arte muito própria das populações ribeirinhas, as carrancas, rostos ou caretas muito feias, horrendas mesmo, geralmente entalhadas em madeira e colocadas nas proas dos barcos, para espantar «mau olhado», pescarias ruins, o Nego e a Mãe D’Água e o Minhocão. As lendas criaram decoração e passaram a fazer parte do cotidiano das famílias brasileiras em várias regiões para além da Bacia do «Velho Chico». Assim, as carrancas estão presentes também como peças de decoração em inúmeras residências Brasil afora.

Refleti, ainda, sobre o quanto somos abençoados por nossas águas e o quão pouco as valorizamos… Lembrei-me da Carta de Caminha, que já no século XVI afirmava que «nesta terra em se plantando tudo dá», pelo potencial de suas límpidas e cristalinas águas. Infelizmente, hoje, essas mesmas águas em função da exploração e da ganância do homem estão sujas e com os seus rios assoreados…

Pensei, também, na beleza da Cachoeira de Paulo Afonso, formada pelas águas do São Francisco em sua passagem pela Bahia, pintada e retratada em versos desde o século XIX. Desta Cachoeira resta atualmente apenas um filete de água, pois a construção da Hidroelétrica de Paulo Afonso diminuiu o caudal de água. Sua beleza, tal como era, só é possível ser vislumbrada em dias especiais, quando a Hidrelétrica abre suas comportas e as rochas voltam a dilacerar o rio, como nas palavras do poeta:

A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos! […]
Os braços do gigante suarentos
Agüentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro

Esses pensamentos desembocaram romântica e saudosamente na letra de uma música composta por Sá e Guarabyra, chamada Sobradinho, que fala de todas essas mudanças do rio São Francisco e do sertão:

O homem chega e já desfaz a natureza,
Tira gente, põe represa e diz que
tudo vai mudar,
O São Francisco lá pra cima da Bahia,
diz que dia menos dia
Vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia
Do Beato que dizia que o Sertão
vai virar mar […]

E, finalmente, o meu pensamento desaguou no que aconteceria ao rio quando – e se – se aprovar o projeto proposto pelo governo federal, atualmente em tramitação no Congresso, de transposição de suas águas para irrigar o Sertão. Em que pesem os possíveis benefícios com esse projeto há que se pensar os riscos para a flora, fauna, ictiofauna, populações, enfim, para a sobrevivência do próprio rio. Mas isso já é outra história.