Cachaça, a rainha do Sul | João Azevedo Fernandes

Abrideira, amarelinha, amorosa, azulzinha, bichinha, branquinha, brasileirinha, caninha, danadinha, dindinha, lindinha, meladinha, pinguinha, purinha, santinha, sinhazinha, teimosinha…

“Branquinha pura, branquinha / Nunca fez mal a ninguém / Se negro morre por ela, / Branco morre também. / Da Caninha do Cipó / Sempre assim ouvi dizer – / Quanto mais a gente bebe, / Mais vontade de beber…”

Abre-bondade, água-benta, água-de-briga, água-que-passarinho-não-bebe, apaga-tristeza, aquela-que-matou-o-guarda, assovio-de-cobra, boa-pra-tudo, capote-de-pobre, cem-virtudes, desmancha-samba, esquenta-aqui-dentro, lágrima-de-virgem, levanta-velho, santo-onofre-de-bodega, semente-de-arenga, três-tombos, urina-de-santo, xarope-dos-bebos…

“Vou na venda / Bebo dois vinténs de cana / Meto a faca em Zé Viana / Vou p’ra cadeia morá”

Ácido, água-bruta, a-que-incha, arrebenta-peito, braba, cândida, desmanchadeira, estricnina, extrato-hepático, garapa-doida, malvada, não-sei-quê, nó-cego, pau-de-urubu, perigosa, terebintina, tíner, veneno, venenosa…

Peguei a tomá cachaça / pensando que bem me fazia, / era coisa qu’eu não queria / meter-me nessa desgraça”

Atlas Van der Hagen. Engenho de açúcar, Brasil (1690).

Terá a cachaça alguma maldição? Companheira de todas as horas, tratada com um carinho que só pode ser expresso por uma profusão de diminutivos, a bebida nacional do Brasil é também vista como uma inefável fonte de desgraças. Cachaça é moça branca, filha de um home triguero, quem puxa mucho por ela, fica pobre e sem dinhero, diz a loa popular. Chamada por alguns estrangeiros de «rum», para horror de quem conhece as diferenças entre as duas bebidas, a cachaça tem uma longa história, que se mistura com a própria origem do Brasil. Tão longa que, em seus primórdios, nem se chamava cachaça, mas jeribita, palavra de origem duvidosa, africana talvez. Cachaça era a escuma formada pelas impurezas que subiam dos tachos em que se fervia o sumo da cana. Esta operação era realizada na casa das fornalhas, que o jesuíta Antonil, escrevendo em 1711, chamou de «cárcere de fogo e fumo perpétuo», e onde trabalhavam os escravos «boubentos» ou «com corrimentos», que procuravam a cura para seus males através do indescritível suadouro, e os escravos criminosos, punidos e postos a trabalhar naquele inferno. A escuma dali resultante era dada aos animais e aos escravos, negros e índios, que a fermentavam e a bebiam com o nome de garapa ou vinho de mel.

Não se sabe ao certo quando esta garapa passou a ser destilada. Beber álcool destilado era uma novidade para os próprios europeus: durante a Idade Média a acqua vitae, extraída do vinho, era usada apenas como um remédio. É durante os séculos XVI e XVII que toda uma pletora de novas bebidas – brandies, bagaceiras, whiskies, grappas… – surgirá entre os europeus. Será na América, porém, que os destilados conhecerão seu paraíso, entre enormes quantidades de matéria-prima, como a cana-de-açúcar e o milho, e uma fartura de braços cativos para produzi-las e bebê-las.

No Brasil, é bem provável que a cachaça já fosse produzida em fins do século XVI. Durante o século seguinte, o Império português assistiu a uma verdadeira guerra contra a cachaça, que roubava mercados às bebidas do Reino, e que, por proibida, não pagava imposto. Apesar do peso da Coroa e das autoridades locais, a moça-branca espalhou-se alegremente, nos braços do contrabando, tanto no Brasil quanto na África, obrigando a Coroa a aceitar e taxar a nova bebida. Os sobas que vendiam escravos aos europeus adoraram a cachaça brasileira, forte e barata, e exigiam que esta, juntamente com o tabaco, participasse do tráfico de gente para o Brasil. Os navios que vinham lotados de homens e mulheres acorrentados voltavam carregados de barris da garapa-doida. Aos africanos escravizados, comprados com cachaça em sua terra, cabia chegar ao Brasil e fabricar mais cachaça, em meio ao calor das fornalhas e às chibatadas dos feitores. Para compensar, bebiam, e bebiam muito. A cachaça acabou por se tornar uma bebida associada aos negros: marimbondo dono do mato, carrapato dono da jóia, todo mundo bebe cachaça, negro de Angola só leva fama, diz o folclore brasileiro.

Os índios também se tornaram amantes da água-de-briga. Enquanto sua bebida fermentada tradicional, o cauim, feito de mandioca, milho ou frutas, era tenazmente combatido pelos jesuítas, os nativos iam sendo apresentados à lindinha. O padre António Vieira, escrevendo em 1654, mostrou como a cachaça era usada pelos colonizadores para atrair os índios «brabos»: «[…] nós os festejamos e brindamos; e, posto que estranharam a aguardente, que é o vinho de cana, que cá se usa, eles nos prometeram com muita graça que se iriam acostumando, e nós o cremos». Realmente, eles se acostumaram ao cauimtatá, o «cauim-de-fogo», como a cachaça era chamada por eles, e diziam: «goi i catu de catonhe cauim tata» ou «oh! Quanto é bom, muito bom o vinho de fogo». Durante toda a história do Brasil, a cachaça foi usada para conquistar corações e mentes dos indígenas brasileiros, muitas vezes com conseqüências desastrosas.

Podemos, agora, quem sabe, responder à nossa pergunta inicial. Tratada como uma bebida «de pobre», indigna de ser bebida por «gente bem», a cachaça tornou-se um porto seguro para todos aqueles que sustentaram, com seu trabalho e sangue, a construção do Brasil. Talvez por esta origem radicalmente popular, a cachaça tenha demorado tanto a ser considerada a delícia que é, seja na forma pura, seja como espírito do drinque nacional do Brasil, a caipirinha. Aos poucos, a amorosa vai se tornando uma bebida madura, algumas dentre elas sendo tão gostosas quanto uma bagaceira. Já não se bebe apenas nos botequins, mas também em sofisticadas cachaçarias. Vai se tornando realidade a voz do cancioneiro popular, quando dizia:

“De primeiro só bebia negro, caboco e mulato, / hoje até os home alto / veve bebo todo dia, / na rua tombá e pendê / contano os passo errado / até o seu delegado / já tenho visto bebé”. 

Bebamos, pois, não o veneno ou a malvada, mas a dindinha, a purinha, a teimosinha…