Atlântica 06

Carta de marear | João Ventura

Como nómadas das águas, em travessias de ida e volta, entre lugares de partida e de chegada da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos» – como escreveu Jorge Luís Borges – empreendemos uma viagem circular através dos «labirintos embebidos de tinta» das suas páginas. E eis-nos, agora, chegados a este cabo da escrita, não sabemos ainda se «tormentoso» ou da «esperança»,  para onde nos empurra a «crise» que está aí, e que a todos, até mesmo aos trotamundos, afecta.

Porque, como dizia Einstein, «em momentos de crise só a imaginação é mais importante do que o conhecimento», respondemos ao perigo que sobrevém e aos maquinadores de catástrofes que tudo querem levar para os abismos do mar, com a imaginação de que dispomos, temperada de inconformismo e servida com a «inocência do agir», pondo este número 06 da atlântica a navegar num novo formato 13x21cm, muito próximo do moleskine, o caderno mítico que o escritor e viajante Bruce Chatwin utilizava para registar os seus pensamentos nómadas, doravante, também, para nós, o caderno onde «todos os caminhos da ibero-américa se bifurcam» e em cujos «labirintos embebidos de tinta» continuaremos a interpretar os sinais, os traços, a distinções, as semelhanças onde se espelha a alma ibero-americana cuja matriz é, também, lusófona.

Respondemos à «crise» com os meios escassos de que dispomos, mudando de formato, indo, afinal, ao encontro do sentido do próprio termo «crise» que na sua origem significa mudança, transição, e retirando dela, com intuição criativa aquilo que ela pode gerar de adaptação e oportunidade.

Dobrar agora este cabo da escrita, sempre rumo ao Sul, ao Sudoeste, perseguindo – como diria o escritor mexicano Sergio Pitol – uma «arte da fuga». Este o modo de, à escala deste projecto editorial, afrontarmos a «crise» e não sermos, glosando o filósofo alemão Hans Blumenberg, espectadores do nosso naufrágio.

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