Atlântica 05

Pertencer ao Sul | João Ventura

Discorre Lídia Jorge num belíssimo ensaio que publicamos nesta edição sobre a noção de pertença, sobre a noção
de cisma, traição ou singularidade, o que leva, também, a uma interpelação a nós próprios sobre o lugar de pertença da atlântica.

Terá esta revista um lugar de pertença? E, se sim, a que lugar pertence? Quais os territórios que nela atravessamos? Na sua génese partimos da ideia de travessia oceânica, de aproximação de margens, de territórios, de regiões e, sobretudo, de representação de um certo imaginário ibero-americano. Dizemos, então, que a revista pertence aos portos e praias da memória partilhada entre as duas margens atlânticas, donde empreendemos, depois, a viagem de intromissão, de indagação através dos territórios sobrepostos da literatura, da história, da política, dos usos, das identidades para descobrir no rasto das vivências comuns iniciais a ressonância de um passado que irrompe no musgo da história. Mas ressonância que indicia todas as metáforas que este exercício de curiosidade partilhada persegue, como se a atlântica fosse “a região mais transparente” onde se espelha a alma ibero-americana.

Vozes múltiplas ecoam na revista como num búzio onde se escuta a maresia do Sul. Vozes de navegantes da escrita que aqui deixam o seu rasto num conto, num poema, num ensaio, numa crónica, num testemunho, numa fotografia, cujo sopro continua a empurrar a revista cada vez mais para o Sul. A eles pertence também esta revista.

Nesse movimento em direcção ao Sul, à utopia do Sul, para onde o promontório de Sagres aponta, guardamos, ainda, a herança do nosso próprio território de pertença pessoal, o Algarve. Porque é neste Sul português que se faz a atlântica, transportando consigo o lastro de uma terra em mudança, que muitas vezes já não reconhecemos, talvez já sem redenção, mas onde batem, ainda, as nossas horas mais íntimas.

Por isso, embora continuemos a navegar rumo ao Sul, aportando em Valparaíso sob os céus secretos do Cruzeiro do Sul, procurando Coloane em cada maré, ou atravessando os cem anos de solidão de um Chile que não esquece as feridas de um passado recente, é à Lisboa azul de muitas cores que regressamos, para logo descermos ao Algarve iluminado pela brancura da flor do sal.

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