Atlântica 03

Um solo de clarineta | João Ventura

Na atlântica 03, fazemo-nos de novo ao mar respondendo ao «apelo nómada das águas» que, hoje e sempre, a partir das escarpas nuas de Sagres, nos leva para longe. Mas como o Ulisses de Eduardo Lourenço, navegamos apenas para regressar ao porto que conhecemos e nos conhece.

Pura errância no labirinto líquido por onde nos aventuramos, puxando os fios azuis que nos levam ao encontro do outro lado de nós. Espécie de «solo de clarineta», como diria Erico Veríssimo cuja vida se conta nesta edição.Vila Nova de Portimão, entre dois mares. O de Ulisses e o Atlântico. Falamos da sua vaga gente, buscando ouro e glória, errando de porto em porto, até chegar a Cartagena das Índias.

Na outra margem atlântica, continuamos a deambular pelos recantos mais secretos e invisíveis das cidades das Américas. Movidos pelo espírito baudelairiano do flâneur, perdemo-nos no labirinto de ruas e bairros do Rio de Janeiro – Vila Isabel, Caju, Morro da Conceição – e descobrimos pedaços de Portugal que julgávamos perdido.

Como nas calçadas de Copacabana. Ou nas estantes do Real Gabinete Português de Leitura. Ou, ainda, nas imagens de um São Jorge de rosto lusitano que nos persegue em cada esquina. Santo da casa levado para o outro lado do mar. Aventuramo-nos pela Lapa, sempre eterna, imaginada, cantada por poetas e músicos de todas as épocas. Subimos, finalmente, ao Alto da Boa Vista à procura de uma cidade desaparecida, atravessando a floresta, os silêncios e o cheiro de terra húmida, descendo, depois, até encontrar as velhas amendoeiras junto ao mar.

Também algum cheirinho a alecrim na evocação da avó Antónia, através de uma imagem que contém todos os cheiros, num velho quintal de Minas Gerais, onde se misturam aromas e sabores dos frutos da língua portuguesa no Brasil. «Doces como a manga, leves como a melancia, ácidos como o abacaxi, azedos como o limão, raspantes como o gosto deixado na boca pelo caju». Os sabores principais como dádivas ambíguas onde, ainda e sempre, encontramos Portugal. Como numa carta que uma capivara escreve a um tatu. Ou num rio profundo atravessando o sertão.

E também a História, a que vem nos livros, e a outra. Primeiro, a das independências, reinventando as Américas. Desde o grito do Ipiranga ao fracasso do sonho de uma grande Colômbia e à emergência da República Oriental do Uruguai.

Depois, a história trágica dos cem anos de solidão, porque a fome não é uma milonga e, como nos diz Erico Veríssimo, é preciso «fazer luz sobre as injustiças», nem que seja «com um candeeiro, um toco de vela…» Aqui com uma fotografia de uma trágica beleza. Caminhos cruzados, ainda, de Erico Veríssimo com seu filho Luís Fernando Veríssimo e sua amiga Lygia Fagundes Telles. Fios da memória que aqui se estendem entre as duas margens atlânticas, cem anos depois do nascimento do escritor gaúcho. Um solo de clarineta onde o escritor e nós próprios nos cumprimos.

Atlantica03