Atlântica 02

Fios azuis | João Ventura

Numa página da atlântica 02 há um poema de Nuno Júdice, onde o poeta persegue a linha imaginária dos rios que levam a um mar que não tem portos nem barcos. Também as águas em que navegamos em cada edição da atlântica são como fios, azuis, que estendemos entre as margens oceânicas para nos reencontrarmos, uns e outros, no outro lado de nós.

Procuramos aproximações, cruzamentos de linhas de sentido que dão profundidade ao mar atlântico onde se espelha a nossa alma comum. E são muitos, já, os fios azuis que nos levam nesta corrente atlântica, desenhados desde geografias diversas por mãos cúmplices de um projecto editorial que se vai fazendo a partir da periferia para o mundo.

Primeiro, Sagres, lugar inaugural desta revista, fio azul estendido sobre este mar por Lídia Jorge, onde ainda e sempre existirá o «aceno que leva para longe o nómada das águas». Agora, os Açores, de onde João de Melo «puxa os fios do mar… como um cavalo a galope sobre a espuma de um perfeito sonho de largada …, desejo de viajar ao encontro do mundo».

Os lugares de partida de «Todos os nomes» que vão fazendo a atlântica, aqui enunciados ao acaso: Lima, Faro, Lisboa, Montevideu, Mendoza, Buenos Aires, Barranquilla, Aljezur, Portimão, Achadinha, Virginópolis, Santiago do Chile, Boliqueime, São Paulo, Ovalle, Coimbra, David, Valparaíso, Cuzco, Uruguaiana, Chillán, Tondela, Marselha, João Pessoa, Porto Alegre, Florida, Resistência, Pico da Pedra, Luanda, Comercinho (…)

O Algarve, moradia solar da atlântica entre dois mares, lugar de pertença de poetas, escritores, investigadores, fotógrafos que generosamente riscam no papel os fios azuis, «inventando descobertas nas colunas de um coreto», olhando a partir das suas «escarpas nuas» o mar imenso que se estende para Sul, desvendando Américas feitas de encantos e desencantos.

Como se a atlântica fosse «um búzio em que ressoa a maresia do mundo». As cidades invisíveis das Américas em cujos labirintos nos perdemos. Montevideu cidade-porto, através do qual chegaram, desde meados do século XIX, as vagas sucessivas de imigrantes que fizeram dela uma cidade polifónica, onde se combinavam idiomas, sonhos e projectos, cores e estilos de vida diversos. Mas também uma Montevideu onettiana, atravessada por fantasmas de um passado recente que continua a marcar profundamente o seu destino. E ainda, Havana, a cidade nocturna fundada por Cabrera Infante. E uma aventura entre Porto Rico e São Domingos.

Outras geografias, ainda. A majestosa amplidão da pampa instituindo-se em território pleno de metáforas, de existência lírica e irreal. Ainda ao Sul, Santa Catarina, ilha de histórias de desterro, bruxas e lobisomens. E subindo o continente, um jogo de futebol em Churubamba. Um monte que fumega em Popocatépetl. Um rolo de papel exposto em Iowa City.

E do lado de cá, um eléctrico atravessando uma rua na Madragoa. Ou a evocação dos barinéis, caiques e canoas levando Guadiana acima brocados e especiarias de Tunis, Siracusa ou Alexandria, outras vezes, carne fresca, couros e pelicas, frutos secos e lingotes de prata e chumbo. Outros mares, portanto.

E atravessando toda a atlântica, sob o «arco inteiro dos astros», a evocação de Juan Rulfo e dos seus livros fundacionais – Planície em chamas e Pedro Páramo – pretexto para outras inquirições sobre um México em cujos labirintos, às vezes, também, encontramos Portugal. Ou não fosse Atlântica um lançar e puxar de fios azuis entre as duas margens do mar.

 

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