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Manifesto editorial | João Ventura

As águas que fluem nas nossas praias ibéricas, atlânticas as de Portugal, mediterrânicas as da Andaluzia, são as mesmas que banham as Antilhas, entram pelo Golfo do México e correm, depois, rumo ao sul ao longo da costa da América do Sul, unindo-se, finalmente, ao Pacífico no Estreito de Magalhães, para voltar a subir numa viagem de circum-navegação que incessantemente recomeça.

Eis a geografia exterior da Ibero-américa que é, também, a referência espacial da revista e que nos leva a perguntar, como Bruce Chatwin, o que fazemos ali, no outro lado do mar, quando, umas vezes, respondendo ao “apelo nómada das águas”, outras vezes como viajantes sedentários, percorremos as paisagens, as gentes, as culturas, os costumes, as gastronomias e as surpresas do «velho Novo Mundo».

A história comum de encontros e desencontros. De Vespúcio e dos cronistas das Índias a Neruda, Carpentier e Gabriel García Márquez, quase sempre uma América inventada, imaginada, feita de encantos e desencantos. Mas também a Ibero-américa imaginada por Borges, Cortázar, Valejo, Paz, Onetti, Jorge Amado e tantos outros, cujas vidas são como as estrelas, caindo do alto do céu sobre este imenso Sul. E também aqueles que, como uma imensa corrente atlântica, derramam nas nossas praias as novas figuras da modernidade ibero-americana.

Os lugares de partida e de chegada da «vaga gente sem geografia cumprindo em sua carne, obscuramente, seus hábitos», como conta Borges a Pessoa. Os portos e as praias da memória. Outras travessias de ida e volta entre a saudade e a esperança de corações emigrantes navegando num mar Atlântico em cujas águas verdes, azuis e negras se espelha a nossa essência comum. (…)

As cidades. As da ausência, a Cuzco inca ou a Tenochititlán asteca, em cujos labirintos imaginários nos perdemos. E as outras, ibero-americanas. A Cidade do Panamá, espécie de ilha cercada de selva e mar. A Cidade do México, «cidade do sol parado, cidade de calcinações longas, cidade a fogo lento». Ou Santiago «das mulheres formosas com olhares de uva». Ou o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa. Ou a secreta Buenos Aires inventada por Borges. Ou todas as outras que convidamos a descobrir, «porque aquilo que nos interessa é o que o viajante vê».

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