A porta secreta | Enrique Vila-Matas

Dei comigo a pensar em La puerta condenada, um conto de 1956, onde, num hotel de Montevideu, um comerciante escuta durante a noite um misterioso pranto de uma criança vindo detrás de um armário que esconde uma porta fechada.

O conto de Julio Cortázar começa assim: “Petrone gostou do Hotel Cervantes por razões que teriam desagradado a outros. Era um hotel sombrio, tranquilo, quase deserto. Alguém que conhecera quando cruzava o rio no Vapor da carreira recomendara-o, dizendo-lhe que ficava no centro de Montevideu. Petrone aceitou um quarto com casa de banho, no segundo andar, que dava directamente para a recepção”.

Lembro-me que uma amiga argentina, Vlady Kociancich, escreveu um ensaio sobre a casualidade de tipo fantástico entre La puerta condenada e Un viaje o El mago immoral, um outro conto escrito por Bioy Casares, com um enredo semelhante ao de Cortázar. Dizia Kociancich que se a casualidade argumental já era insólita, a presença de muitas outras coincidências tornava tudo ainda mais estranho. Petrone, o personagem de Cortázar e o narrador de Bioy têm a mesma profissão e viajam para a mesma cidade, Montevideu (no Vapor da carreira, um barco que saía de Buenos Aires às 10 da noite e chegava na manhã seguinte ao seu destino), e estiveram quase a registar-se no mesmo hotel sombrio e tranquilo: “Petrone gostou do Hotel Cervantes por razões que teriam desagradado a outros” – escreve Cortázar. “Juraria ter dito ao taxista que me levasse ao Hotel Cervantes” – interroga-se o personagem de Bioy, com inquietante perplexidade quando o taxi pára em frente do Hotel La Alhambra. E mais. A melancólica vista da casa de banho é bastante semelhante em ambos os contos. E a coincidência encontra-se ainda nas vozes nocturnas dos vizinhos de quarto que despertam os personagem: enquanto o enigmático choro de uma criança, vinda detrás do armário que esconde uma porta fechada não deixa Petone dormir, o don Juan fracassado de Bioy sofre o castigo de escutar um casal fazendo amor ruidosamente.

Cortázar, que sempre falou do poder mágico dos hotéis montevideanos, disse numa entrevista: “Eu queria que o quarto tivesse a atmosfera do Hotel Cervantes, porque, para mim, representava de algum modo muitas coisas de Montevideu. Havia o personagem do gerente, a estátua que se encontra (ou se encontrava) no foyer, uma réplica de Vénus, e o ambiente geral do hotel. Não sei quem me recomendou o Cervantes, onde, com efeito, havia um quarto minúsculo. Entre a cama, uma mesa e um grande armário que tapava uma porta fechada, o espaço que restava para mover-me era mínimo”.

O Hotel Cervantes, na rua Soriano, entre Convención e Andes, continua de pé. Assim, se algum dia eu for a Montevideu, irei vê-lo e tratarei de hospedar-me no segundo andar, num “quarto minúsculo”, onde talvez ainda esteja aquele grande armário que tapava a misteriosa porta secreta.

Pesquisei na Internet e parece que o hotel não mudou muito, continua sombrio e tranquilo, ainda que, melhor dizendo, relativamente tranquilo. Pode imaginar-se que o hotel não se modernizou. Ignoro se ainda ali estará a mítica estátua do foyer, réplica de Vénus, mas o que é certo é que às sextas-feiras e sábados há «troca de casais»; vêm os chamados swingers, que me recordam a troca de enredos nos contos de Bioy e Cortázar. Coisas que acontecem.

No blogue de uma rapariga uruguaia, sem dúvida totalmente alheia ao conto de Cortázar, pode ler-se acerca do Hotel Cervantes: “o seu telefone é o 900-7991 e ganhou um lugar no tema swinger. É um hotel velho e decadente, conforme me contou a minha prima que, uma vez, lá ficou com o namorado e viu uma barata, e por isso, foi à recepção exigir a devolução do dinheiro”.

A verdade é que tanto a coincidência dos contos como o episódio da barata permitem-me acalentar a esperança de que a enigmática porta secreta ainda lá esteja, de tal modo que, se um dia eu for a Montevideu, irei procurá-la naquele hotel. É bom imaginar que há no horizonte da minha vida uma porta secreta à minha espera.

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Nota: esta ficção de Enrique Vila-Matas foi-nos generosamente enviada pelo autor, ainda inédita, e publicada na atlântica, nº 06, em 2010. Uma versão reformulada seria, mais tarde, publicada em Dietario voluble. No seu mais recente romance, Montevideo (Barcelona: Seix Barral, 2022), E V-M volta a reescrever o mesmo episódio da puerta condenada.