Ouvir na noite a maresia | António Ramos Rosa

Ouvir na noite a maresia e ver o arco inteiro dos astros

é pertencer inteiramente ao grande harmónio do universo

Mas nós vivemos em quartos poeirentos

e já não vemos as constelações ofuscadas pelas luzes da cidade

O silêncio já não tem a placidez planetária

de um grande bálsamo de sombra universal,

Lembro-me ainda na minha terra solar de me estender ao comprido no ladrilho do terraço

de frente para as estrelas

e o firmamento inteiro abria-se num vasto leque tranquilamente cintilante

Ondulava na grande embarcação do universo

e respirava o seu vagaroso e rescendente pulmão

Ninguém navega já assim no espaço

e por isso se perdeu a fértil lentidão da terra

Se o poema é um búzio em que ressoa a maresia do mundo

poderá ele suscitar o desejo de pertencer à terra

como uma árvore que se inclina sobre as ondas

ou uma torre vegetal de sombras embriagadas pela brisa marinha?

 

Poema inédito de António Ramos Rosa, escrito expressamente para a atlântica 01.