Neruda e a invenção de Valparaíso | Sergio Vuskovic Rojo

Valparaíso é um lugar metafísico, situado para lá da física, para lá do tempo e do espaço, para lá da história, uma urbe parada no tempo, fora desta época e que, todavia, vive e muda constantemente, é um centro mágico da existência.

É talvez a única povoação deste país que não foi fundada pelos espanhóis, mas sim, no seu estatuto nobiliário, por vários poetas e escritores. Desde Nicanor Parra, que fala de «Valparaíso afundada para cima», a Gonzalo Rojas, que considera a cidade como «obscuridade que sobe, obscuridade que desce», ou a Joaquín Edwards Bello, que defende que «Valparaíso não impõe ideias feitas. Cada qual a imagina à sua maneira», exaltando o carácter tolerante da primeira cidade chilena que acolheu imigrantes de todo o mundo, especialmente da Europa. Até à chegada do cigano Rodríguez que descobriu que «Valparaíso amarra como a fome».

Cidade milagrosa criada pelos «cerrenhos» e pelos poetas. Naturalmente que a este afã de criação não escaparia Pablo que, num livro chamado Geografía, criou uma orografia imaginária:

«Vamos a Valparaíso, vamos ao insólito porto sem portas, à porta dos vastos mares. Valparaíso é mínima e universal, sórdida e gloriosa. Valparaíso obscura arde na areia do Pacífico como uma brasa fria, como uma estrela de mil pontas”.

“Valparaíso usurpou-me, submeteu-me ao seu domínio, ao seu dislate. Valparaíso é um montão, é um racimo de casas loucas, é um pássaro que cai sobre a tua cabeça, é uma criança pobre no meio do ferro velho, é uma mulher angustiada, é uma distância. Um casal, uma cama, Valparaíso é uma escada e três cavalos, outra escada que conduz às nuvens e outra que nos convida às vidas alheias, à intimidade escorregadia que nunca conseguiremos partilhar senão com os degraus pisados por um milhão de pés que passaram enfiando-se nos lençóis de Domingo, quando tudo corre escadas acima, para os cerros, para as famílias numerosas, para a pobreza de cima, pobreza orgulhosa e férrea temperada em todos os combates de terra e mar.»

Valparaíso não é uma cidade, pois, por muito que falemos da cidade, esta, na verdade, não existe: é uma confederação de 42 cerros e um vale. E, como se não bastasse, é fácil constatar que não tem um centro. Cada um imagina-o como quer. Por isso, Lukas afirmava que Valparaíso é a única cidade do Chile que não se parece com Quillota: aqui não há uma Praça de Armas ou uma Praça Maior. E, no entanto, existe uma harmonia subjacente na sua desordem. Como cidade, padece de irrealidade, tanta que, às vezes, o duque de Goicolea exclama, surpreendendo-se a si mesmo: «Valparaíso não existe.» E, por isso, o poeta Arturo Morales lhe recomenda: «Não gires, a cidade não existe» (23.º poema itinerante), desinventando Valparaíso.

Como é possível que os cemitérios desfrutem da melhor vista sobre o mar, já que todos estão no cimo de alguns cerros? Durante o terramoto de 1965, no cemitério n.º 2 quebraram-se vários mausoléus e sepulturas comuns, produzindo-se uma «chuva de mortos na cidade», como anunciou o El Mercurio. Quem poderia imaginar que apareceria um leão afogado na praia de Las Gaviotas à saída do leito da avenida Argentina? 

Melhor, parece que é um estado de alma. Manuel Peña Muñoz, por sua vez, sentiu: «Nada mais triste que o Cerro Alegre. Sobretudo num Domingo de Outono, quando no meio da neblina aparece o tocador de realejo, pela rua Munich, a tocar Violetas Imperiais». Ou o «mote mei» que irrompe com o seu farol entre as cascatas de neblina que anunciam as primeiras gotas de chuva.

Na realidade, verdadeiramente, Valparaíso padece de um sentimento de irrealidade que evidencia o seu tom metafísico, como história do ser de Valparaíso, no qual são frequentes as rajadas de vento norte e também os ventos de irracionalidade e os encontros fortuitos.

Procurando o seu centro, andaremos pelo vale, subiremos ou desceremos por qualquer escadaria, mas poderá ocorrer que alguma não levará a parte nenhuma, como a que existe na avenida Francia com Colón, na esquina do Liceu Eduardo de la Barra, atrás da bomba de gasolina. Ou, então, sofreremos uma espécie de ilusão óptica ao observarmos, de cima, as casas do porto porque nos mostram cinco paredes em vez de quatro, sendo a quinta o tecto multicor.

Este espírito de tolerância também foi intuído por Pablo Neruda que, ao escrever o livro Valparaíso, exerceu a sua função criadora com uma topografia imaginária na qual aparecem 50 cerros, quatro ou cinco dos quais são fruto da sua imaginação prodigiosa, mas que tinham nomes muito bonitos como El Árbol Copado, Del Buey, Del Cardenal, e termina com um toque de realidade nomeando El Cerro de la Florida: «Neste cerro está a minha casa», ainda que os vizinhos do cerro Bella Vista digam que a Sebastiana está no seu cerro. E reclamam porque o poeta se esqueceu de o nomear.

O logos portenho exibe-se através de uma arquitectura contorcionista, com casas velhas desequilibradas, imbricadas umas nas outras, amparando-se mutuamente, nos bairros antigos, dentro de labirintos de becos sujos em terra batida, alguns tão estreitos como o caminho de uma mina subterrânea.

Becos em ziguezague, com escadas e escadinhas deformadas, com os degraus a diferente altura que, de vez em quando, terminam numa parede cega ou em casas malignas, criando uma atmosfera de pesadelo, de medo, ao ter que percorrê-los de noite ou quando as sombras começam a cobrir o mundo. Becos propensos a encontros fortuitos…

Esta convivência entre a sombra e a luz constitui, em grande parte, o logos da Valparaíso oitocentista que ressuscitou no século XXI, transmitido pelas gerações anteriores no século XX, e que devemos transmitir às gerações do século XXI. O seu logos sempre foi e é aventureiro, perigoso e fascinante porque não cessa de atrair com os seus encantos e abismos. Valparaíso não liberta os que cativou, como sucede com o jovem poeta norte- -americano Todd Temkins e com o pintor francês Thierry Defert, Loro Coirón. Entretanto, Ennio Moltedo e Allan Browne mantinham erguida a bandeira dos portenhistas.

Os cerros e o raio verde: ao caminhar pelos becos ou pelas escadas dos cerros, no segundo crepúsculo que anuncia a noite, sempre sopra algo misterioso, ambíguo, tão indefinível como o próprio nome da cidade que não admite o seu gentílico correspondente (a não ser que aceitemos «valparaisino», proposto, em italiano, pelo professor Mauricio Nocera), já que portenho se refere ao porto; mas o que a define são os cerros e a sua sismografia, áreas encantadas da imaginação e a partir dos quais se pode ver correr o azul-lavanda da atmosfera cristalina ou o raio verde. Fulgor infinito, o último a aparecer sobre o mar antes que o Sol se esconda nos crepúsculos claros do fim de tarde, ao cair da noite, e que eu pensava que só existia como metáfora num verso de Pablo Neruda, até que o vi afundar-se no horizonte límpido, acompanhado de Nenita e Rodolfo Pumpin, como testemunhas.

Todos os cerros e não apenas os da fundação, isto é, Cordillera, Alegre e Concepción, têm casas solarengas com estruturas e andares de madeiras nobres – tepa, carvalho americano, pinho «oregón», lariço das Guaitecas – guardadas por portas com maçanetas de bronze em forma de punho ou de cabeça de leão e as janelas de guilhotina que emitem sons e ruídos característicos ao abrir ou fechar.

As divisões da casa apresentam geralmente rodapés de madeira, às vezes de pau duro de Caiena, trazido das Guianas e que, passado um século, ainda exalam uma suave fragrância vegetal. Os escritórios, as salas de jantar e os quartos de dormir possuem formosas lareiras construídas por operários ingleses, trazidos especialmente de Londres. Os móveis eram da famosa oficina Cruz Montt, de Santiago. Nas casas antigas, os jardins são pequenos: copihues , alfazema, filodendros paraguaios, aspidistras, etc. Com sebes de trepadeiras e canteiros cobertos de aromáticos jasmins e, nos maiores das casas solarengas, podem encontrar-se palmeiras, palmas chilenas, araucárias e camélias.

Manuel Rojas, no seu romance Lanchas en la Bahía, não deixou de se fixar no gosto portenho pelos jardins e pelas árvores, o que também é visível nas casas mais modestas: «Alguns ranchos pendiam dos muros dos cerros, ostentando vasos de barro com cravos, malvas, cardenales e achiras.» Sendo muito importante o património material – arquitectónico, urbanístico e doméstico, com uma vida vivida nas casas e nos becos –, não é menos importante o património espiritual, ético que aqui se construiu: a emigração multiétnica e de diferentes continentes produziu a virtude da tolerância, típica do ser portenho, que sabe que detém uma parte da verdade, mas não toda a verdade; no próprio cerro Concepción, a um quarteirão de distância, encontram-se a Igreja Luterana, alemã, e a Igreja Anglicana de São Paulo, inglesa. Perto delas está a Igreja de São Luís, católica, nas imediações da qual os mormones construíram, recentemente, a sua igreja. Os antigos comerciantes e industriais eram, por sua vez, homens de cultura e, em alguns casos, refinada; Don Joaquín Edwards Bello sustenta que «a cortesia e a boa educação de Valparaíso têm uma parte do cunho inglês».

Este espírito de tolerância e esta ausência de fanatismo parecem encontrar uma das suas raízes na ânsia de mar e de vastidão que sempre esteve presente na cultura portenha. O romancista Salvador Reyes escreveu em Los Tripulantes de la Noche: «Nas tardes mais luminosas, o porto era um grande barco. Cortava as amarras e lançava-se empurrado pelo vento das grandes aventuras»; e Carlos León, em Hombre del Traje Blanco, também investigou sobre o seu sentido metafísico e a sua abertura ao mundo: «Valparaíso é uma terra diferente. Sobe à cabeça como umvinho generoso»; e, em Hombres de Palabras, transforma-o num amigo: «o porto de Valparaíso que escolhi para viver como a um amigo».

A ânsia de mar levou «aquele chileno» à tripulação do capitão Acab em Moby Dick, de Herman Melville, ou «àquele portenho» que D. Benjamín Subercaseux encontrou nas ruas de Tóquio conduzindo um riquexó, segundo conta num velho Pacífico Magazine.

A ânsia de mar, de liberdade e aventura é que contribuiu para que as gerações passadas nos legassem esta Valparaíso do século XIX, a nós, gente do século XX, que temos como missão deixá-la, como herança cultural, às gerações do século XXI, libertando-a da especulação idílica e fazendo suas as aquisições provadas pela história e pela estética.

O orador oceânico Augusto D´Halmar, o eterno viageiro pela passagem Elias, afirma que «o seu nome sugere distância, exotismo, aventura. O seu nome, só por si, infiltra já nas veias dos sedentários ou dos inquietos o feitiço da viagem»; ainda mais agora que é património cultural da Humanidade.

«Vamos a Valparaíso», venha a Valparaíso e invente a sua própria Valparaíso.